Drummond e o Caminho
No Meio do Caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade
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| Foto: Google Images |
Este é, provavelmente, o poema mais famoso de Carlos Drummond de Andrade. Com uma temática fora do comum, foi publicado em 1928, na "Revista de Antropofagia", surgida do "Manifesto Antropófago", escrito por Oswald de Andrade, um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil. No "Manifesto do Antropófago", Oswald afirma que "só a antropofagia nos une", propondo "deglutir"o legado cultural europeu e "digeri-lo" sob a forma de uma arte tipicamente brasileira. E que forma melhor de "abrasileirar"nossa arte que aproximá-la de nosso cotidiano? E que forma melhor de aproximá-la de nosso cotidiano senão substituindo aquele Português academicista pela informalidade de nossos Portugueses falados Brasil afora? Porque não falarmos de nossos costumes que compartilham DNA europeu, africano e indígena?
Quando leio "No Meio do Caminho", penso nas pedras como os obstáculos que encontramos pela vida. A questão é que, dependendo do tamanho e formato da pedra, nos sentimos impedidos de seguir o percurso. Seria a solução aquela proposta por Fernando Pessoa: "Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…"? Fato é que experiências difíceis deixam lembranças e profundas marcas. O que fazer com elas? Guardá-las? Esquecê-las? Não! Usá-las para construir um futuro maravilhoso, o nosso castelo! Decerto que esse inesquecível processo pode fatigar nossas retinas, mas a memória deixada por esses acontecimentos nos faz ter a certeza de que vale a pena seguir em frente, ainda que apareçam muitas pedras no meio do caminho.



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