Sobre Amor e Epifania: Como conheci Clarice
![]() |
| Imagem: Stoodi. |
Conheci Clarice Lispector, em um livro que reunia contos de diversos autores brasileiros, leitura obrigatória à época em que eu cursava o Ensino Médio. Não me recordo de nenhum autor de nosso Modernismo que, mesmo tendo sido fortemente influenciado pelo existencialismo, tenha mergulhado tão profundamente no íntimo da alma humana. Clarice consegue fazer com que enxerguemos situações cotidianas, aparentemente banais, com outros olhos, pois delas pode vir aquele clique que nos revelará a essência de algo que sempre esteve ali, mas acabou por tornar-se invisível pelo corre-corre da vida. Assim, o papel da epifania clariceana é ser a chave para que nos embrenhemos no misterioso e, por vezes, perigoso território da verdade sobre si ou sobre o mundo.
O texto que me apresentou a Clarice Lispector chama-se "Amor". Conta a história de Ana, uma típica dona de casa de classe média, preocupada com seus afazeres rotineiros: criar os filhos, cozinhar, costurar, arrumar a casa, pagar as contas, agradar o marido.
Certo dia, Ana saiu para comprar ovos para o jantar. Receberia, à noite, seus irmãos com as mulheres e filhos. Ao retornar para casa, no fim da tarde, já dentro do bonde, viu um homem parado no ponto:
"A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles. (...) Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida."
A imagem de um cego mascando goma provoca em Ana uma epifania. Esse pequeno fato provocou uma reação avassaladora na protagonista. A partir dessa visão, ela começa a refletir sobre o amor e os rumos tomados por sua vida. Em meio a tantos pensamentos, Ana passa de seu ponto de descida e, estando próxima ao Jardim Botânico, resolveu entrar e passear um pouco:
"Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo."
Pensando sobre sua vida e analisando o que tem feito de seus dias, Ana fica por horas no Jardim Botânico a observar as árvores, até que escurece e o local fecha. De volta à casa, ela ainda está aérea, pensativa e um pouco arrependida de ter passado a tarde a se questionar.
"Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal - o cego ou o belo Jardim Botânico? - agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. O sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o."
Ao marido, disse:
"- Não quero que lhe aconteça nada, nunca!"
Em seus braços, sentiu afastar-se o perigo de viver:
"Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia."
Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
Foto: Maria Cristina Lagoas.
"Amor"é um dos treze contos que compõem o livro "Laços de Família", publicado em 1960. Nele, Clarice Lispector retrata um episódio da vida de Ana, mãe, esposa e dona de casa. Mulher ativa, dedica sua vida a cuidar da família e das tarefas de casa, o que lhe ocupa a mente durante a maior parte do tempo, exceto na chamada "hora perigosa", durante a tarde, quando se encontra disponível para se concentrar em si mesma. Foi quando, certo dia, após fazer as compras para o jantar, nossa protagonista entra no bonde que a levaria a sua casa. Entre uma parada e outra no caminho até o Humaitá, Ana vê algo que abalaria seu mundo inteiro: um homem cego mascando goma. Da epifania nasce a reflexão sobre si e o mundo que a rodeia. Ainda que tenha visto o homem por um breve momento, "o mal estava feito", pois era uma imagem que a confrontava com a dureza da vida, com a realidade crua, fora da comodidade de sua família e rotina diária. O mecânico, repetitivo, abrir e fechar da boca do cego a mascar chicletes, num sorrir e não sorrir sem fim, sem conseguir enxergar o que o rodeia, a faz pensar em como sua vida é similar. Dia após dia, Ana faz tudo sempre igual: acorda, faz faxina, alimenta a família. Tudo isso mecanicamente, tal qual a mastigação do homem. Não vê além daquilo que existe entre as quatro paredes de sua casa. O cego é a porta de saída de seu mundinho particular. Ele representa a vida que ela adotou, com seus papeis de mãe e esposa, num cumprimento às expectativas sociais.
A súbita tomada de consciência do mundo ao seu redor causou-lhe perturbação e fez com que Ana descesse do bonde em um ponto que não era o certo. Caminhou até um lugar conhecido, o Jardim Botânico. Lá, sentou-se e observou a natureza. Depois do cego, era a vez do Jardim conduzir seus questionamentos, divagações. Seus olhos, agora, enxergavam o mundo através de novas lentes. Diante da crueza da realidade, a vida segue sua batalha entre fragilidade e força. As horas passam e Ana se encontra perdida em seus pensamentos até que estes são interrompidos pela lembrança de que sua família a espera. Consumida por um sentimento de culpa, volta para casa, mas sem conseguir esquecer tudo o que vivera e sentira naquela tarde. O Jardim representa Ana como pessoa, pois é lá que pensa em si individualmente, focando em suas escolhas e decisões, cogitando uma mudança de vida. Mas, apesar do fato de que "a vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar", "ela amava o cego". Isso quer dizer que a protagonista ama sua família, o modelo que o cego representava. Assim sendo, ainda que não fosse a vida do jeito que ela gostaria, ou estaria tentada a abraçar, Ana seguiria vivendo da mesma maneira, assumindo as mesmas funções. O "Amor" que dá título ao texto não é o amor pelo cego, pelo sedutor Jardim ou por si própria, mas por seu marido e filhos. O Amor é o fio condutor de todas as suas escolhas, sobrepondo-se a quaisquer epifania e vontade de viver outras vidas.


Comentários
Postar um comentário